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O poder no futebol: Boris Rotenberg


Boris Borisovich Rotenberg. Este nome diz-lhe alguma coisa? Para a grande parte dos fãs de futebol provavelmente não, mas quem conhece a história deste lateral-direito garante que é uma das mais ''curiosas'' no mundo do futebol.

Nascido no dia 19 de maio de 1986 em Leningrado, na União Soviética, hoje a cidade de São Petersburgo, na Rússia, Boris nasceu num berço de ouro. Formado em economia e falante de cinco idiomas, o finlandês é filho de Boris Romanovich Rotenberg, um dos homens mais ricos e poderosos da Rússia e que desde a década de 60 é amigo próximo de nada mais nada menos que Vladimir Putin, presidente russo.

O empresário, hoje com 63 anos, é co-proprietário, em conjunto com o seu irmão Arkady Rotenberg, do grupo SGM (StroyGazMontazh), a maior companhia de construção de gasodutos e de fornecimento de energia elétrica na Rússia. Ambos são donos do banco SMP, presente em 40 cidades na Rússia e que conta com mais de 100 filiais espalhadas pelo maior país do mundo.

Para se ter uma ideia do poder de ambos, já estiveram na lista negra dos Estados Unidos e da União Europeia, já sofreram boicote por parte de empresas como a Visa ou Mastercard e foram ainda citados no célebre escândalo Panama Papers.


Vladimir Putin, presidente da Rússia e Arkady Rotenberg, tio de Boris
Mas voltando à carreira do jogador, Boris Rotenberg iniciou a sua curiosa carreira no HJK de Helsínquia, o maior e mais vitorioso clube da Finlândia. O jovem lateral-direito transferiu-se para o FC Jokerit, um clube menor da cidade, voltando depois ao HJK, para jogar na equipa de reservas. Mesmo sem um bom desempenho em ambos os clubes, foi convidado a fazer um período de experiência no Chelsea em 2004, que meses antes tinha sido adquirido pelo russo Roman Abramovich. 

Não convenceu os dirigentes ingleses e voltou ao seu país, até ser contratado por outro grande clube em 2006, o Zenit de São Petersburgo, que recentemente tinha sido adquirido pela Gazprom, companhia de gás russa. Curiosamente ou não, o seu pai e o seu tio possuíam negócios com a Gazprom. Além disso, o seu irmão Roman trabalhava na empresa.

Rotenberg não se conseguiu destacar nas camadas jovens do Zenit. De acordo com um blogue de futebol na altura, o jogador fugia constantemente da bola e perdia facilmente a posição. Foi então emprestado ao Shinnik, equipa da primeira divisão russa. Tendo chegado ao clube em janeiro de 2008, passou apenas seis meses na equipa, atuando em incríveis cinco minutos. O Shinnik foi despromovido, ficando em penúltimo lugar. Disputou a segunda parte da época no Saturn por empréstimo, também da primeira divisão, onde fez tudo menos jogar, completando assim zero minutos.

A incrível prestação de Boris fez com que o FC Khimki, clube moscovita, ficasse interessado no jogador, que assinou por empréstimo. Mais uma vez, algumas curiosidades. O clube era patrocinado pelo banco SMP, que foi fundado pelo seu pai e pelo seu tio. Na sua nova equipa, participou em 13 jogos, mas o Khimki acabou despromovido no último lugar do campeonato, tendo sido alvo de inúmeras críticas e eleito um dos piores jogadores da época por jornais russos.


Boris Rotenberg (direita) com a camisola do FC Khimki
Em 2010, foi o Alania Vladikavkaz, campeão nacional em 1995, a ter interesse no jogador, pelo que conseguiu a sua contratação por empréstimo. Como esperado, jogou muito pouco e não escapou das fortes críticas dos adeptos. Em 2011, após cinco anos a pertencer aos quadros do Zenit, Boris Rotenberg não teve o seu contrato renovado. 

Seria expectável de que daqui em diante, a carreira do jogador fosse entrando em declínio, mas foi exatamente o inverso que aconteceu. O Dynamo de Moscovo, um dos maiores clubes da Rússia, 11 vezes campeão nacional, contratou Boris. Mais uma vez, o seu tio Arkady era presidente da equipa de hóquei do Dynamo e o seu pai tornaria-se presidente do clube dois anos depois, em 2013. Apesar de já não ser um jovem, o seu novo clube descreveu-o como uma ''jovem promessa'', justificando desta forma a sua aposta em Rosenberg.

No entanto, e mais uma vez, foi emprestado ao Kuban Krasnodar, onde não conseguiu fazer nenhum jogo pela equipa, que terminou em 6º lugar. Em 2012/13, foi novamente emprestado, mas desta vez para fora da Rússia. O Olympiakos Nicosia, do Chipre, recebeu o finlandês. Mais uma vez, as suas prestações foram péssimas, tendo participado em 13 jogos, contabilizando 793 minutos e sendo substituído em praticamente todos os jogos. Como foi apanágio em toda a sua carreira, o clube cipriota foi despromovido à segunda divisão nacional.

No início da temporada 2013/14, o seu pai, Boris Rotenberg foi eleito presidente do Dynamo de Moscovo. Como tal, o seu filho passou a ser aposta recorrente do treinador, indo para o banco de suplentes diversas vezes. Fez a sua estreia no dia 16 de setembro de 2013, substituindo o ucraniano Andriy Voronin, ex-Liverpool. Completou apenas dois jogos nessa época, com o banco a ser a sua posição mais frequente.

Na época seguinte, continuou a ser suplente na maior parte dos jogos, com aparições esporádicas entre os titulares, sendo quase sempre substituído. Destaca-se a sua entrada em jogo entre o Estoril Praia e o Dynamo para a Liga Europa realizado no Estádio António Coimbra da Mota, no Estoril, que acabou com vitória russa por 2-1. Os relvados portugueses puderam ver Boris em campo cerca de 1 minuto, quando entrou para o lugar do experiente Mathieu Valbuena já em tempo de compensação. 

Para se ter noção, o clube russo contava naquela altura nas suas fileiras com jogadores como o francês Valbuena, os internacionais russos Aleksander Kokorin, Yuri Zhirkov e Igor Denisov, o alemão Kevin Kurányi, o húngaro Dzsudzsák, o ex-Manchester United Alexander Büttner ou o ex-Sporting Douglas.

Em abril de 2015, estala a maior polémica da carreira de Boris Rotenberg. O treinador Stanislav Cherchesov, que foi o seleccionador da Rússia no Campeonato do Mundo em 2018, e na altura treinador do Dynamo, deixou no banco Aleksei Kozlov, lateral-direito titular da seleção russa para colocar... Rotenberg. Um dos craques da equipa, Igor Denisov, foi afastado do plantel após alegadamente ter discutido com o treinador. Até hoje não se sabe se o motivo teria sido a ''opção'' por Rotenberg, mas há quem diga que sim. 

Para apaziguar os ânimos, outra das estrelas do clube, o francês Mathieu Valbuena, afirmou que Rotenberg ''dava tudo de si nos treinos, jogava com paixão e que não lhe podia apontar nada''. Apesar das críticas, Boris ainda fez mais três jogos até ao final do campeonato.


Rotenberg (direita) em campo pelo Dynamo contra o Lokomotiv, o seu futuro clube
As suas atuações chamaram à atenção do seleccionador da Finlândia Mixu Paatelainen, que o convocou pela primeira vez para representar a sua seleção. Boris estreou-se num amigável com a Estónia, onde foi substituído ao intervalo após uma péssima exibição, que acabou com vitória do estónios por 2-0. A performance muito abaixo do aceitável valeu-lhe a dispensa da comitiva finlandesa, não tendo sido sequer convocado para o jogo contra a Hungria dias depois, a contar para o apuramento para o Euro 2016. Esta foi a única vez, até hoje, que Rotenberg vestiu a camisola branca e azul da Finlândia.

Com a saída do seu pai da presidência do clube, perdeu algum espaço (ou influência, diga-se), e foi novamente emprestado, desta vez ao Rostov, clube sensação do campeonato, terminando em segundo lugar e classificando-se para a Liga dos Campeões do ano seguinte. Com 15 jogos disputados, sendo 13 como titular, foi substituído em todos. Sim, em todos. As prestações do jogador não convenceram o Rostov a renovar o empréstimo, muito menos o Dynamo a renovar-lhe o contrato, já que o seu pai já tinha saído do clube. 

Boris ficou livre, e como é óbvio, não foi por muito tempo. O Lokomotiv de Moscovo contratou-o e assim continuava a incrível carreira de Boris Rotenberg. Apesar de passar grande parte do tempo no banco, ainda conseguiu entrar em campo duas vezes, contabilizando pouquíssimos minutos no decorrer da temporada. No entanto, a nova experiência deu o primeiro título da carreira do jogador, a Taça da Rússia, em 2017. Boris foi considerado campeão mesmo não tendo entrado em campo na competição.

Na época seguinte, mais uma vez passou grande parte da época no banco, tendo participado em apenas dez jogos. Tornou-se também o jogador que mais vezes esteve no banco na história do campeonato russo: foram 131 vezes, que já aumentaram entretanto. Com apenas seis jogos, tornou-se campeão russo, já que o Lokomotiv conquistou o campeonato, com um golo de... Éder.


Rotenberg celebra o título da Liga Russa conquistado pelo Lokomotiv
Ainda hoje no Lokomotiv, atuou em apenas cinco jogos na época 2018/19 e não entrou em campo na atual temporada 2019/20, devido a uma lesão grave no joelho em dezembro de 2018. Ainda assim, foi a tempo de fazer a sua estreia na Liga dos Campeões, no dia 28 de novembro de 2018, na vitória do Lokomotiv contra o Galatasaray por 2-0 em Moscovo, entrando aos 90 minutos. 

No universo futebolístico russo, o jogador é alvo de piadas constantes. Alguns jornalistas russos admitem que é notória a influência do pai e do seu tio na sua carreira, ajudando-o a figurar em clubes importantes do futebol russo, financiando esses mesmos clubes, que assim deixariam Boris Rotenberg jogar esporadicamente. Apesar de não ter o nível adequado para as equipas que representou, é apreciado por colegas e treinadores, uma vez que, segundo eles, se dedica imenso nos treinos.

Com incríveis 85 jogos e 0 golos em mais de 10 anos de carreira, contando com três títulos na carreira, uma Liga Russa e duas Taças da Rússia, a última ganha em 2019, o lateral-direito pode gabar-se de ter um currículo muito bom para o rendimento que tem em campo. Aos 34 anos, completados no dia em que é publicada esta história, a sua carreira parece ainda não estar longe do fim. Apesar dos zero minutos em campo na presente época, não será nada surpreendente se outro clube importante do futebol russo com ligação ao seu pai e ao seu tio o contrate no futuro...

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