Maldivas: também existe futebol no paraíso
Conhecidas pelas suas praias paradisíacas, as Maldivas são um dos países mais pequenos do mundo. Com mais de mil ilhas, das quais apenas cerca de 200 são habitadas, esta pequena república situada no Oceano Índico recebe anualmente milhões de turistas.
A capital do país, Malé, é a cidade com maior densidade populacional do mundo. Com uma população de 80 mil pessoas, concentra cerca de um terço da população das Maldivas, o país mais ''baixo'' do mundo, com o ponto mais elevado do país a pouco mais de 2 metros acima do nível do mar.
No entanto, a bola rola em qualquer canto do mundo e neste pequeno paraíso não é diferente. Os primeiros registos de futebol nas Maldivas datam da década de 1940, no entanto, apenas em 1979 se realizou o primeiro jogo oficial da seleção local, três anos antes da fundação da Associação de Futebol das Maldivas. A primeira impressão não foi a mais positiva, dado que foram derrotadas pelas Seychelles por contundentes 9 a 0, em jogo a contar para os Jogos das Ilhas do Oceano Índico daquele ano.
Apesar do primeiro percalço, a Associação de Futebol das Maldivas decidiu investir no futebol, visando a evolução do desporto e para beneficiar as gerações seguintes. Muito por influência de turistas, que já praticavam o desporto nas praias do arquipélago, o futebol tornou-se no desporto mais popular no país.
Depois de vários anos sem participar em torneios oficiais, a seleção das Maldivas voltou ao ativo em 1996, participando nas eliminatórias de qualificação para o Campeonato do Mundo da França, em 1998. Como esperado, a campanha foi péssima: em seis jogos, a seleção sofreu 59 golos e não marcou nenhum. Sem qualquer vitória, destacam-se as derrotas por 17 a 0 contra o Irão e por 12 a 0 contra a Síria.
No entanto, as Maldivas já tinham a honra de jogar contra as principais seleções da Ásia e, em parceria com a FIFA, a associação local voltou a incentivar o investimento no futebol. Com os fundos disponibilizados, foram melhoradas as infraestruturas desportivas em todo o país. Os resultados surgiram e a seleção das Maldivas chegou à final do Campeonato de Futebol do Sudeste Asiático, além de um histórico empate a zero contra a Coreia do Sul, que em 2002 havia conseguido um 4º lugar no Campeonato do Mundo.
| Apesar das dificuldades iniciais, a seleção das Maldivas tem evoluído ano após ano. |
Por sua vez, o campeonato de futebol das Maldivas é realizado desde 1946, possuindo um formato interessante: na primeira fase, oito equipas enfrentam-se apenas uma vez. Dessas oito, seis são da capital Malé e as outras duas são provenientes das restantes ilhas. Na segunda fase, as seis melhores equipas voltam a enfrentar-se, desta feita a duas voltas. O vencedor é declarado campeão e qualifica-se para a AFC Cup, competição criada pela Confederação Asiática de Futebol para ajudar no desenvolvimento do futebol em países de menor expressão no continente. O segundo classificado e o vencedor da taça nacional também se qualificam para a competição.
Apesar da tentativa da associação local em expandir o futebol para o máximo de ilhas possíveis, os principais clubes do país situam-se, naturalmente, na capital Malé. Com 21 títulos nacionais, o Victory é o clube mais antigo e vitorioso do país, contando um lema peculiar: ''O nome diz tudo''. O seu rival New Radiant é o segundo maior vencedor, tendo conquistado o título nacional por 14 vezes.
Ambos os clubes são os que possuem o maior número de adeptos, pelo que se trata da maior rivalidade das Maldivas. Curiosamente, na época 2019/20, o New Radiant não participou e o Victory foi despromovido após diversas faltas de comparência, depois de nos anos anteriores ter passado dificuldades financeiras. O campeonato foi vencido pelo Maziya, repetindo o feito conseguido em 2016.
| Jogadores do Maziya celebram a conquista do campeonato. |
No futebol maldívio, destaca-se um jogador em particular, o avançado Ali Ashfaq, melhor marcador da história do campeonato e também o mais prolífico com as cores das Maldivas: 54 golos em 83 jogos. Em 2004, ainda muito jovem, chegou a receber um convite do Benfica para realizar testes, que recusou. O jogador foi treinado pelo Professor Neca na seleção local, tendo recebido ainda propostas do Boavista e do Penafiel, que também prontamente rejeitou.
Apesar de ter passado grande parte da carreira no seu país, conta com duas experiências no estrangeiro, com passagens pelo DPMM FC do Brunei, em 2007/08 e em 2009/2010, e pelo PDRM FA da Malásia entre 2014 e 2016. Hoje no TC Sports Club, disputou o seu único jogo em 2020 a 11 de março, na derrota por 5 a 1 contra os Bashundhara Kings, do Bangladesh. Quatro dos cinco golos da equipa adversária foram marcados por... Hernán Barcos, ex-Sporting.
| Estrela maldívia, Ali Ashfaq comemora um golo pela seleção das Maldivas. |
Voltando ao investimento feito no futebol local, em 2019 foi dado um novo passo. O inglês Judan Ali foi nomeado o novo diretor da Associação de Futebol das Maldivas, num contrato de 10 anos. Ali possui diversas experiências no mundo do futebol, tendo passado pelo Arsenal e pelo Barcelona, bem como pelo futebol de Taiwan e de Hong Kong, onde fez parte da equipa técnica do Kitchee, um dos maiores clubes da ex-colónia britânica.
Ali garantiu que tinha observado os jogadores nos últimos anos e afirmou que se podem encontrar nas Maldivas jogadores muito bem dotados tecnicamente, com um estilo semelhante ao praticado em La Masia, academia do Barcelona. Chegou a entrar em contacto com o brasileiro Rivaldo e com o português Maniche para assumirem o cargo futuramente, bem como treinadores como Peter Reid ou Bryan Robson. No entanto, o escolhido foi o holandês Martin Koopman, contratado em janeiro de 2020.
| Martin Koopman (direita) foi o homem escolhido por Ali. |
Apesar do investimento, quase todos os jogadores maldívios são semi-profissionais, tendo profissões como vendedores ou pescadores durante o dia e treinando somente à noite, quando as temperaturas são mais baixas. Em março, foi inaugurado um centro de treinos na capital Malé, no qual cerca de uma centena de jovens poderão desenvolver as suas capacidades.
O costa-marfinense Yaya Touré, que visitou Malé antes do jogo entre Maldivas e Guam, que terminou com a vitória da seleção da casa por 3 a 1 em partida a contar para a qualificação para o Campeonato do Mundo, mostrou-se impressionado com as condições das infraestruturas.
O plano do dirigente inglês é construir pelo menos mais oito centros de treino pelas ilhas do país, deixando no entanto uma prioridade imediata: ''Se ganharmos à China, à Síria e às Filipinas, qualificamo-nos para o Mundial do Qatar. Isso seria um grande começo.''
Já sob o leme de Martin Koopman, ainda está tudo em aberto, apesar de se adivinhar uma tarefa difícil. Com a pandemia do COVID-19, o jogo decisivo na China, que se realizaria em março, foi adiado. Até ao reatar do futebol, os homens deste pequeno país insular terão mais tempo para se preparar...




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