Sí, se puede!
Ao contrário de grande parte dos países da América Latina, o futebol não é o desporto mais popular em Cuba, e sim o beisebol. No entanto, a popularidade do futebol tem aumentado nos últimos anos. A seleção do país de Fidel Castro participou por apenas uma vez num Campeonato do Mundo, no longíquo ano de 1938. Desde então, esta ilha com tanto potencial tem acumulado insucessos desportivos, além de muita polémica à mistura.
O futebol foi introduzido em Cuba pelos britânicos, no início do século XX e em 1907 é fundado o primeiro clube de futebol do país, o Clube Deportes Hatuey, enquanto que dois anos mais tarde é fundado o Rovers Athletic Club, composto por jogadores da comunidade britânica na ilha.
O primeiro jogo oficial de que há registo no país data de 1911, quando o Rovers Athletic Club derrotou o Clube Deportes Hatuey por 1 a 0. O clube fundado por britânicos venceu o primeiro campeonato de futebol organizado em Cuba em 1912, com a edição seguinte a ser vencida pelo Hatuey, que contava com um misto de cubanos, espanhóis e até alguns ingleses.
Antes dos heróis do Campeonato do Mundo de 1938, Cuba produziu vários jogadores de qualidade, entre os quais se destacam oito que atuaram pelo Real Madrid na década de 1940. O médio Chus Alonso, natural de Havana, foi o jogador cubano de maior sucesso, tendo jogado nove anos com a camisola blanca, assinando 55 golos com a camisola do clube espanhol. Filho de imigrantes asturianos, chegou a jogar três vezes pela seleção espanhola.
Ainda em 1930, Cuba organizou a segunda edição dos Jogos Centro-Americanos, fazendo a sua estreia em competições oficiais. O primeiro adversário dos cubanos foi a Jamaica, colónia britânica naquela época, com uma vitória da equipa da casa por 3 a 1. Depois de vitórias contra Honduras, por duas vezes, El Salvador e Costa Rica, a seleção cubana venceu o torneio.
Depois de falhada a qualificação para o Mundial de 1934, o sonho tornou-se realidade em 1938. As federações americanas mostraram-se insatisfeitas com o facto da FIFA ter falhado em cumprir a promessa de intercalar a sede do Mundial entre América do Sul e Europa, pelo que todas as seleções americanas, com excepção do Brasil e de Cuba, decidiram não embarcar para França, onde seria realizado o torneio.
Cuba, Brasil e as Índias Orientais Holandesas, a atual Indonésia, foram as únicas seleções fora da Europa que participaram naquele Campeonato do Mundo. Na estreia, os cubanos empataram 3 a 3 contra a Roménia, em Toulouse. Este empate foi histórico e uma surpresa para todos, pelo que no jogo de desempate, a seleção cubana conseguiu mesmo vencer por 2 a 1.
Ainda assim, a alegria cubana não durou muito tempo, terminando nos quartos de final. Cuba enfrentaria a Suécia, que havia beneficiado da desistência da Áustria, anexada pela Alemanha Nazi, tendo os jogadores austríacos representado a Alemanha na competição. Por não ter jogado, os suecos entraram com maior fulgor e o resultado não ofereceu dúvidas: 8 a 0 para a seleção escandinava. Chegava ao fim o percurso dos ''Leões do Caribe''.
| 1938 marcou a única presença de Cuba em Campeonatos do Mundo |
Depois de três finais perdidas na Taça do Caribe em 1996, 1999 e 2005, Cuba conseguiu finalmente voltar a conquistar a competição, derrotando Trinidade e Tobago na final por 1 a 0 em 2012, vingando-se da seleção que os havia derrotado em 1996 e 1999. Finalmente voltava a festa às ruas da capital Havana.
Até aos dias de hoje, o jogador com mais jogos disputados com as cores de Cuba é o defesa Yénier Márquez, com 127 partidas e 15 golos marcados. O melhor marcador de sempre da seleção cubana é Lester Moré, avançado que curiosamente já jogou nos Estados Unidos.
Apesar de algum progresso, nem tudo é um mar de rosas no futebol cubano, muito pelo contrário. Sobre o campeonato local, apesar de todo o entusiasmo à volta da modalidade, no Estádio Nacional Pedro Marrero, a história é um pouco diferente. Mesmo com preços acessíveis, as assistências são sempre baixíssimas.
Se os adeptos não são muito presentes, a imprensa local não fica atrás. Em jogos do campeonato, normalmente apenas algumas rádios relatam as partidas. Não há transmissão pela televisão, fotógrafos nem apanha-bolas - os próprios jogadores vão buscar as bolas chutadas para longe.
Não existe uma divulgação dos jogos, nem sequer uma plataforma para ver o calendário, fazendo com que este descaso de ambas as partes leve a um aumento da popularidade de Real Madrid e Barcelona, clubes mais populares da capital Havana, com os jogos destes dois clubes e de outros grandes clubes europeus a serem transmitidos na televisão.
| A fraca afluência aos jogos de futebol em Cuba é evidente |
O problema dos desaparecimentos de desportistas de elite, não apenas de futebol, é um problema que persegue o desporto cubano há décadas, para grande frustração das autoridades cubanas, que sempre consideraram viram no êxito desportivo uma forma de promover o Estado.
O próprio Fidel Castro chegou a classificar em 2007 os desportistas que desertaram como ''soldados que abandonaram os seus companheiros a meio de um combate''. Estas declarações tiveram dois alvos específicos, os lutadores de boxe Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram durante os Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro em 2007.
Depois de terem sido descobertos pelas autoridades, retornaram a Cuba, onde foram acusados de traição à pátria. Mais tarde, conseguiram fugir definitivamente para o estrangeiro, onde continuaram a sua carreira. Outros lutadores, como Yan Barthelemy, Yuriolki Gamboa e Odlaneir Solis também desertaram em dezembro de 2006, numa competição na Venezuela.
O caso mais mediático dentro do futebol foi na Gold Cup de 2015. Depois da humilhante eliminação contra os Estados Unidos, numa derrota por 6 a 0, quatro jogadores desertaram: o avançado Ariel Martínez, assim como Keiler García, Aral Argüellez e Darío Suárez, fugindo para a Flórida. Também doze jogadores da seleção sub-20 cubana se exilaram nos Estados Unidos, abandonando a concentração da seleção na Flórida.
| Depois de uma pesada derrota contra os Estados Unidos, quatro cubanos desertaram |
Luis Paradela foi o primeiro jogador cubano a jogar nos Estados Unidos de forma legal, isto é, sem desertar do seu país. Assinou pelo Reno 1868 FC, da USL, equivalente à segunda divisão americana. Desta forma, é permitido que continue a jogar pela seleção.
No início deste ano, Cuba exportou os seus primeiros dois jogadores para equipas de fora do país, podendo assim profissionalizar-se: o avançado Maykel Reyes e o defesa Abel Martínez, ambos com 23 anos, que assinaram pela equipa B do Cruz Azul, do México.
Antes desses dois, o médio Osvaldo Alonso desertou e foi jogar no Seattle Sounders, uma das principais equipas da MLS. Impossibilitado de defender a seleção cubana, mostrou desejo em defender os Estados Unidos, algo que já não seria possível, por ter disputado jogos oficiais com o seu país natal.
| Depois de desertar em 2007, Osvaldo Alonso jogou no Seattle Sounders de 2009 até 2018. Atualmente, joga no Minnesota United |
A abertura da relação diplómatica entre Estados Unidos e Cuba teve um marco simbólico no futebol. No dia 2 de junho de 2015, o New York Cosmos, antiga equipa de Pelé, disputou um amigável em Havana, contra a seleção cubana, vencendo por 4 a 1 no Estádio Nacional Pedro Marrero. Este jogo histórico contou com a presença de Pelé na bancada e de Raúl González, jogador da equipa americana, em campo.
Mais recentemente, no dia 7 de outubro de 2016, Cuba e Estados Unidos voltaram a enfrentar-se em território cubano, também num amigável, com a vitória a sorrir aos americanos novamente, numa vitória tranquila por 2 a 0.
| Cuba e New York Cosmos enfrentam-se num jogo histórico, em 2015 |
Com apenas 14 anos, começou a treinar no Arminia Biefield, da Alemanha. Desde então, tem se destacado na carreira e conseguiu jogar em clubes como o Werder Bremen, Wolfsburg e Eintracht Braunschweig, até que em janeiro de 2018 foi contratado pelo Norwich, pela quantia de 2 milhões e meio de euros.
Apesar de um início difícil em Inglaterra, começou a época seguinte em grande estilo, marcando dois golos decisivos no empate contra o Birmingham, ainda no Championship. Onel tem passaporte alemão, mas o seu sonho é jogar pela seleção de Cuba, deixando isso bem claro em entrevista: ''É uma pena que seja assim. Há bons jogadores cubanos em outros países que poderiam contribuir para o crescimento da seleção. Não precisamos do dinheiro, aceitamos jogar de graça''.
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Hoje no Norwich, Onel Hernández mostra o seu orgulho em ser cubano
Esse sonho poderia ter se tornado uma realidade. O seleccionador cubano Raúl Mederos chegou a convocá-lo para jogar contra a República Dominicana, algo que deixou Onel em êxtase. Infelizmente, a alegria do jogador durou pouco. Antes de viajar para Havana, recebeu um telefonema de Mederos, com o treinador a dizer-lhe que não poderia jogar devido a ordens superiores, mas apenas treinar com o plantel.
O sonho de Onel vai ter que esperar, assim como o de muitos outros jogadores cubanos, que apenas pretendem evoluir fora do seu país, algo que não lhes é proporcionado na sua terra natal, e assim dar um contributo decisivo para o desenvolvimento do futebol na ilha. Até lá, resta acreditar que Sí, se puede!
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